Quarta-feira, 5 de Abril de 2006

as bruxas

Ela caíu.
A queda que a conduz para a outra dimensão. A dimensão da vida – não de vegetar, mas de viver: sentir, querer e ser.
Ela sucumbiu. Sucumbiu ao desejo, aos mistérios, ao prazer.
Desventrou a natureza: abriu-a, penetrou-a. Por entre a vegetação densa e profunda, a bestialidade, as águas dos rios, dos mares, das fráguas caíu. Sentiu. Vibrou de prazer. Desnudou-se e quedou-se na natureza. Sentiu crescer o calor do corpo, a sensualidade tomá-la...... perdeu-se na natureza.
Mais que compreendê-la, possuiu-a, penetrou-a derrubando-lhe os limites castamente impostos. Grotescamente impostos.

Ela não quer ser domada; não quer ceder ou fingir que cede; esse jogo não lhe interessa. O jogo da sedução e do faz de conta: o querer e ocultar o olhar; o desejar e com os lábios mentir. Ela quer o que quer e quer. Quer tão somente querer e materializar o seu poder.

A bruxa mostra poder, denuncia o seu saber. Ela quer ler, ver, dizer e mostrar.

A bruxa. Eis a bruxa.
O seu poder é objecto de fascínio, mas é também uma lâmina que desliza da sua cabeça ao dorso. Divide-a ao olhar alheio.
Ela apela e repele o olhar alheio. Cobiçada e rejeitada.
Desfez-se dos espelhos. Aprendeu a olhar para as suas entranhas corticais e nelas se remexe e a elas se impele.

A bruxa mete medo. Ela é bela. Ela brilha. Pisa com segurança. Ela pode mais que eles. Ela sabe. Eles sabem que ela pode. E ela apresenta-se, mostra-se. Imponente.

Ela, a bruxa, só será desejável enquanto potencialmente dominável. Mas receamo-la indomável, invergável. A bruxa está convencida do seu poder que não é bom nem mau. É apenas poder. Aos olhos do mundano qualquer forma de poder feminino é negativo; é perverso; inverte a lógica do poder diurno.

E ela vai para a floresta. O desejo da vida e da morte. La petite mort, la grande vie. Perdição.

Só fala com o vento que lambe as lágrimas solitárias do sal da vida.
As suas palavras são demasiado sonoras para ouvidos comuns. São extravagantes.
Só acaricia a areia que se esvai entre e sobre o seu corpo e não fica.
O seu rosto desmesuradamente aberto para ser olhado directamente apela à desconfiança: como se pode mostrar tanto?
Ninguém sabe olhar o sol. E também não esta desmesurada abertura.


Penetra a água que lava o seu ser, o pensamento, a energia.

E agora ela? E a bruxa?

O espelho grita: Bruxa! Bruxa!
Ela ri-se. Sempre se riu muito. E ri-se do espelho. E o espelho quebra-se.
Ela fica. E o eco foi-se.
Foi-se?........

Ela caíu. Queda vitoriosa. Descobriu um caminho. Não foi derrubada.
Derrubou-se.

Não foi queimada. Queimou-se e lambeu as chagas. Os seus enzimas as curaram.

É bruxa: apenas porque se adivinhou, se desnudou, se descobriu.

Ela sofre de uma patologia antisocial: a lucidez.
Os efeitos colaterais manifestam-se na sua personalidade disfuncional. Não funciona para todos. Não é alternativa. É só ela.
Frontal, activa, animal desejante. Arrojada. Não espera, avança. Não teme, enfrenta o medo – brinca com ele; desafia-o. Desde sempre se entenderam: ela e o medo. São amigos desde sempre. Conhece-o bem e não o teme.

A bruxa é amazona.
Ama sobretudo a vida. Dela retira a sua força. Nela constrói o seu percurso.

Amazona que cavalga a vida. Que o homem não doma.

eu sou dionisante às 19:23

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